Crisol: Theater of Idols é um jogo em primeira pessoa ambientado em uma versão distópica da Espanha. Embora tenha sido comparado por alguns a BioShock, vale deixar claro desde o início que as semelhanças são mais estéticas do que estruturais. Na prática, estamos diante de uma experiência bem diferente, com personalidade própria e ideias interessantes.

No controle de Gabriel, acordamos em uma ilha devastada, sem memória de como chegamos ali, sabendo apenas que servimos ao Deus Sol e que devemos alcançar um templo localizado no ponto mais alto do local. A sensação de abandono, morte e decadência é constante, e não demora para que sejamos confrontados por criaturas bizarras que se assemelham a estátuas ou marionetes que ganham vida e nos levam inevitavelmente à morte.
É nesse momento que Crisol apresenta uma de suas ideias mais ousadas: Gabriel recebe uma nova chance do Deus Sol, ressuscita e sua arma se transforma. A partir daí, todas as balas passam a ser feitas do próprio sangue do protagonista.
História e enredo: mistério constante em Crisol Theather of Idols
A narrativa é um dos grandes acertos de Crisol: Theater of Idols. Desde o início, tudo é envolto em mistério. Aos poucos, fica claro que há uma guerra em curso entre o Deus Sol e outra entidade ligada às águas. A ilha está sob chuva constante, e os seguidores dessas forças opostas travam um conflito violento.

O jogo não entrega respostas fáceis. Não entendemos de imediato os motivos da guerra, o que causou tamanha destruição ou mesmo quem é herói ou vilão nessa história, incluindo o próprio Gabriel. Essa ambiguidade mantém o jogador intrigado e engajado até o fim da campanha.
Jogabilidade estratégica e balas de sangue
Em termos de estrutura, Crisol: Theater of Idols não reinventa o gênero de horror em primeira pessoa. Temos cenários devastados, exploração em busca de coletáveis, dinheiro para upgrades, alguns sustos e progressão por capítulos. Tudo isso é bastante familiar.
O grande diferencial está na mecânica das balas de sangue. Durante toda a campanha, não existe munição espalhada pelo mapa. Sempre que o jogador precisa recarregar qualquer arma, Gabriel sacrifica parte do próprio HP para criar novas balas. Errar tiros, portanto, não significa apenas desperdício de recursos, mas também perda direta de vida.

Essa ideia transforma completamente o ritmo do combate. Não espere tiroteios insanos como em DOOM ou no próprio BioShock. Aqui, cada confronto exige cautela, precisão e planejamento. Os inimigos são equilibrados dentro dessa proposta, justamente porque o jogo não permite margem para erros constantes.
Gabriel também pode absorver o sangue de animais mortos para recuperar HP e, assim, manter esse ciclo de risco e recompensa. No entanto, é justo dizer que essa mecânica pode ser confusa nas primeiras horas, especialmente porque o ideal é sempre criar balas antes de recuperar a vida, algo que nem sempre lembramos de fazer, resultando em perdas desnecessárias.

Além disso, o jogo conta com seringas de plasmalita, uma espécie de sangue especial usado para cura. O número de seringas é limitado, mas pode ser expandido ao longo da campanha.
Capítulos, mapa e progressão
O jogo é dividido em capítulos e, embora não apresente uma grande variedade de inimigos, novos tipos surgem gradualmente, evitando que a experiência fique totalmente repetitiva.
O mapa é relativamente grande, mas fácil de navegar. Não é difícil se localizar, e os cenários não se tornam cansativos de explorar. Ao longo da jornada, o jogador encontra puzzles, e algumas áreas com características de um jogo stealth, com inimigos que não podem ser derrotados e momentos mais voltados à ação.
Existe também um sistema de upgrades de armas e habilidades adquiridas com pontos de experiência obtidos ao eliminar inimigos. Infelizmente, essa parte é um dos pontos mais fracos do jogo. As habilidades disponíveis raramente causam impacto real no gameplay, passando a sensação de um sistema subaproveitado.

A qualquer momento é possível acessar o menu, que traz o mapa e memórias anotadas. Essas anotações são úteis para relembrar diálogos e detalhes importantes, especialmente na resolução dos puzzles.
Puzzles e um problema sério
Crisol apresenta diversos puzzles ao longo da jornada. No geral, eles são simples, exigindo mais percepção e atenção do que raciocínio complexo. Porém, há um problema sério em um puzzle específico de dedução.
Em determinado momento, é necessário associar seis nomes a seis quartos diferentes, usando pistas ambientais e o diário da antiga dona do local. Mesmo com a solução correta, a porta simplesmente não se abre. No meu caso, fiquei horas revisando cada detalhe até decidir recarregar um save anterior. Ao repetir exatamente a mesma resposta, a porta finalmente se abriu.
Esse erro é grave, pois pode prender jogadores por horas sem qualquer indicação do que fazer. Outros amigos que também estavam avaliando o jogo para outras mídias relataram o mesmo problema, e a solução encontrada foi justamente recarregar o save conforme indiquei. O bug foi reportado aos desenvolvedores e espero que seja resolvido o quanto antes até o lançamento do jogo.
Atmosfera, arte e som
Mesmo sem gráficos impressionantes e com desempenho irregular no PlayStation 5, Crisol: Theater of Idols brilha na direção de arte. A ambientação passa a sensação de um lugar esquecido no tempo, onde coisas estranhas acontecem a todo momento.

Os cenários são variados o suficiente para não se tornarem repetitivos, e a exploração flui de forma natural. O jogo conta com dublagem em inglês e espanhol, o que ajuda a reforçar ainda mais o clima hispânico da experiência.
O sound design também merece elogios. O som dos tiros é extremamente satisfatório, e detalhes como o barulho constante das goteiras espalhadas pelo cenário ficam ainda mais interessantes quando jogados com fones de ouvido.

O que esperar de Crisol?
Crisol: Theater of Idols pode até lembrar BioShock à primeira vista, mas rapidamente mostra que tem identidade própria. Com um universo instigante, narrativa misteriosa e uma mecânica de combate estratégica baseada em balas de sangue, o jogo se destaca por suas ideias.

Mesmo não sendo um grande fã de jogos em primeira pessoa, Crisol conseguiu me prender do início ao fim, um ótimo sinal para quem já aprecia o gênero. É um título que equilibra bem conceitos clássicos com novidades inteligentes e que definitivamente vale a pena conhecer.
Um FPS original, atmosférico e ousado, que tropeça em alguns detalhes técnicos, mas entrega uma experiência marcante.













