Alguns jogos não começam com ação, começam com uma sensação estranha no estômago. Lost Records: Bloom & Rage é exatamente isso. Desde os primeiros minutos, ficou claro que eu não estava diante de um jogo interessado em me impressionar com sistemas ou desafios. Ele quer algo mais difícil: atenção. E faz isso de um jeito silencioso, quase desconfortável às vezes, mas de forma irregular.

Sinopse da História
A história acompanha um grupo de amigas que se reencontra anos depois de um verão marcante vivido na adolescência, nos anos 90. O jogo se divide entre duas linhas do tempo: o passado, quando tudo ainda parecia simples demais para dar errado, e o presente, onde o peso daquele período começa a se revelar. Existe um acontecimento central que conecta todas elas, mas o jogo nunca trata isso como um mistério tradicional a ser solucionado.
O foco está em como aquele verão moldou cada uma das personagens. Em vários momentos, eu tive a sensação de que o jogo não estava tentando “me contar” uma história, mas me fazer reconstruí-la a partir de fragmentos, lembranças tortas e sentimentos mal resolvidos. É menos sobre respostas e mais sobre revisitar coisas que ficaram mal enterradas.
A Gameplay de Lost Records: Bloom & Rage
A gameplay segue o DNA clássico da DON’T NOD, mas com escolhas bem conscientes. A principal e nova mecânica é o uso da câmera, que permite filmar pessoas, ambientes e pequenos detalhes do cotidiano. No começo, confesso que tratei isso quase como um extra opcional, mas rapidamente percebi que filmar não é um colecionável qualquer. É uma forma de observar melhor o mundo do jogo.

Teve um momento específico em que fiquei alguns segundos parado, sem avançar o diálogo, só enquadrando uma personagem em silêncio enquanto a trilha tocava. Não ganhei nada por isso. Nenhum troféuzinho, nenhuma mensagem. Mas aquele momento ficou. E isso resume bem o jogo.
As escolhas existem(sem tanto peso narrativo), mas raramente são óbvias. Às vezes, a decisão mais pesada é não dizer nada. Em vez de grandes bifurcações narrativas, o jogo trabalha com pequenos incômodos que vão se acumulando aos poucos. Relações aqui não quebram de uma vez; elas vão se desgastando sem fazer barulho.
Controles e Mecânicas
Os controles são simples e diretos, do jeito que precisam ser. A exploração acontece em terceira pessoa, com movimentação tranquila e sem travamentos. Interagir com objetos e personagens é intuitivo, e o uso da câmera é fácil de aprender.
Em poucos minutos, tudo já parece natural.

Não existe combate, puzzles tradicionais ou qualquer tipo de desafio mecânico mais elaborado. O jogo não quer que você domine sistemas, quer que você preste atenção. Isso pode frustrar quem espera algo mais “ativo”, mas é uma escolha coerente com a proposta. Aqui, o controle serve para conduzir a experiência, não para testar habilidade.
Visualmente, o jogo abraça forte a estética dos anos 90: iluminação quente, cenários íntimos, quartos bagunçados, natureza com aquele ar meio melancólico. Tudo parece levemente imperfeito, como uma lembrança que não foi totalmente preservada. A trilha sonora entra com força nesse clima. Em mais de uma cena, senti que a música estava fazendo mais trabalho emocional do que o próprio diálogo.
Performance no PS5
Joguei Lost Records: Bloom & Rage no PlayStation 5 base e a performance é boa na maior parte do tempo, mas não totalmente estável. Em transições de câmera e algumas cenas mais abertas, percebi quedas sutis de fluidez. Em um momento específico, ao sair de um ambiente fechado para uma área externa, o jogo deu um pequeno engasgo que me tirou do clima por alguns segundos.
Visualmente, o estilo artístico segura bem a experiência, mas faltou um pouco mais de polimento técnico. Notei pop-in de texturas em alguns cenários e pequenas inconsistências de iluminação. Nada que quebre o jogo, mas são detalhes que chamam atenção justamente porque a proposta é tão focada em imersão. Para um jogo narrativo, isso pesa menos do que em um título de ação, mas ainda assim fica a sensação de que dava pra entregar algo mais redondo no PS5.
Lost Records: Bloom & Rage vale a pena?
No fim das contas, Lost Records: Bloom & Rage não é sobre um grande mistério nem sobre um plot twist impactante. É sobre amizade, culpa, amadurecimento e sobre o desconforto de revisitar quem você foi. É um jogo que pede calma e abertura emocional. Quem entra esperando ritmo acelerado provavelmente vai se frustrar. Quem entra disposto a sentir, sai diferente.

Esse não é um jogo que você simplesmente termina. É um jogo que fica rondando a cabeça depois que os créditos sobem.
Só é uma pena que a DON’T NOD, fique tentando replicar o sucesso do primeiro Life is Strange em um mundo em que jogos narrativos já não são tão populares quanto alguns anos atrás, mas Lost Records, se a DON’T seguir esse caminho, é um bom recomeço.
Lost Records: Bloom & Rage não tenta agradar todo mundo e essa é justamente sua maior virtude. Um jogo que troca estímulo constante por introspecção e entrega algo que parece menos um produto e mais uma lembrança emprestada para vivermos.













