Review

Denshattack!: tem estilo de sobra, mas o trem não anda sozinho

Uma mistura improvável de skate arcade, velocidade e caos futurista.
Disponível para:
Playstation 5, Xbox Series S/X, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PC
Review escrito por:
Doizelly

Existe algo genuinamente hilário na ideia de controlar um trem fazendo grind nos trilhos, saltando entre plataformas suspensas e encaixando manobras no ar como se fosse um skatista profissional. É justamente dessa premissa completamente absurda que Denshattack! constrói toda a sua identidade.

Na prática, o resultado parece ter surgido de uma aposta maluca entre os desenvolvedores: pegar a estrutura de um clássico jogo de skate arcade, substituir o skate por um pequeno trem de entregas lançado em trilhos de alta velocidade e ambientar tudo em um Japão devastado por desastres climáticos, onde megacorporações controlam o que restou da sociedade. É uma combinação improvável, mas curiosamente criativa desde os primeiros minutos.

o que é Denshattack?

História de Denshattack

O pano de fundo é um Japão que sobrou depois de um colapso climático: a maior parte do território virou área inabitável, e o que restou da população vive confinado em cidades-cúpula seladas, todas sob controle da Miraido, uma megacorporação que não só administra essas cúpulas como também monopoliza o VACTRAIN, o sistema de trens de altíssima velocidade que ainda conecta o que sobrou do país. É dentro desse cenário que conhecemos Emi, uma entregadora de ramen sem grandes pretensões, cujo trabalho consiste simplesmente em levar comida de um ponto a outro pelos trilhos, até ela descobrir, quase por acaso, que seu trem consegue fazer muito mais do que apenas andar em linha reta.

Essa descoberta a coloca em contato com um grupo de “Denshattackers”, pessoas que usam manobras impossíveis sobre os trilhos como forma de resistência simbólica contra o controle da Miraido sobre a vida de todo mundo. 

Ao longo da jornada, Emi cruza caminho com personagens como Yoshie, inicialmente apresentada como rival, a Denshattacker mais forte de Kyushu, estilo gyaru debochada, que acaba se tornando aliada conforme a trama avança, e mais adiante volta como uma das lutas de chefe mais memoráveis do jogo. 

Dito isso, preciso ser sincero: a história aqui é simples, do tipo que qualquer pessoa que já assistiu um shonen básico reconhece de longe. Grupo de foras do padrão, corporação vilanesca, arcos de rivalidade que viram amizade, discursos sobre liberdade e resistência, tudo já visto antes, e tudo entregue sem grandes reviravoltas. Isso não é necessariamente um defeito grave: os diálogos têm timing cômico decente, os personagens têm química entre si, e as cutscenes entre regiões nunca se alongam a ponto de atrapalhar o ritmo de jogo. Mas quem espera uma narrativa que surpreenda ou que fique na memória depois dos créditos vai sair frustrado

Como é jogar Denshattack

É na jogabilidade que Denshattack! revela sua verdadeira identidade e também seu aspecto mais divisivo. O sistema de manobras bebe abertamente da fonte dos clássicos jogos de skate: ollies, kickflips, trocas de trilho no ar e longos grinds que recompensam quem consegue manter o combo até aterrissar com precisão.

A diferença é que tudo isso acontece com um trem, preso a trilhos fixos, numa velocidade que raramente perdoa hesitação. Cada fase pede que você leia o traçado à frente, decida em frações de segundo quando saltar, para qual trilho migrar e como encadear o próximo truque sem perder o embalo e é aqui que mora o maior desafio do jogo: dominar esse sistema é difícil de verdade.

Não é uma dificuldade artificial, do tipo “morra sem entender por quê”. É uma curva de aprendizado legítima, que exige que você internalize timing, ângulo de salto e transição de trilho antes de conseguir emendar qualquer combo digno de nota. As primeiras horas cobram paciência: é bem provável que você repita a mesma fase várias vezes só para entender o que o jogo espera de você ali, e essa exigência pode ser tanto a maior virtude quanto o maior obstáculo de entrada, dependendo do tipo de jogador que estiver do outro lado do controle. Existe um recurso de reinício rápido que ajuda a suavizar um pouco essa repetição, permitindo voltar alguns segundos antes quase instantaneamente sem quebrar o ritmo de tentativa e erro, um mimo bem-vindo, ainda que não resolva a curva de aprendizado em si.

Boss em denshattack

As lutas contra chefes são, sem dúvida, os pontos altos da experiência: enfrentar a versão mecha de Yoshie pilotando uma máquina de guerra debochada, ou uma espécie de toupeira mecânica gigante escavando por baixo dos trilhos, exige aplicar tudo que você aprendeu sobre desvio, timing e leitura de padrão e entrega o tipo de espetáculo visual que faz valer a pena ter suado para chegar até ali. 

Denshattack! também investe em uma série de atividades paralelas, como personalizações para o trem, colecionáveis e desafios. A variedade ajuda a incentivar a exploração, mas nem todo esse conteúdo tem o mesmo peso. Em diversos momentos, fica a impressão de que o jogo se apoia nesses extras para prolongar a campanha, quando sua maior qualidade continua sendo, de longe, o sistema de truques.

Vale a pena jogar?

Chegando à pergunta que interessa: depende muito do tipo de jogador que você é. Se você gosta de perseguir recorde, de sentir a satisfação de finalmente encaixar um combo depois de várias tentativas frustradas, e valoriza direção de arte cel-shaded vibrante somada a uma trilha sonora daquelas que grudam na cabeçak, com contribuições de mais de uma dezena de compositores, incluindo nomes conhecidos da indústria de games, Denshattack! entrega uma experiência genuinamente recompensadora. A sensação de progressão mecânica, de sentir suas próprias mãos melhorando fase após fase, é rara de se encontrar tão bem calibrada em lançamentos recentes.

Por outro lado, se você busca algo mais tranquilo, com uma narrativa que prenda de verdade ou uma curva de dificuldade mais suave, esse não é o jogo certo para essa expectativa. A combinação de controles exigentes logo de cara, história previsível e conteúdo secundário que às vezes soa como enchimento faz o conjunto pesar mais do que deveria para quem só quer relaxar. É um jogo que recompensa quem persiste além da frustração inicial e pune, com desinteresse, quem não tem paciência para isso.

Agradecemos os amigos da Undercoders que gentilmente nos enviaram uma cópia de Denshattack! de Steam para a criação do review.

Denshattack!: tem estilo de sobra, mas o trem não anda sozinho

Disponível para:
Playstation 5, Xbox Series S/X, Nintendo Switch, Nintendo Switch 2, PC
Versão que jogamos:
PC
O jogo possui legendas em Português mas não é dublado.

Pontos Positivos

  • Curva de aprendizado recompensadora
  • Direção de arte vibrante
  • Fases bem variadas
  • Gameplay original e viciante
  • Lutas contra chefes
  • Trilha sonora marcante

Pontos Negativos

  • Conteúdo secundário repetitivo
  • Controles pouco acessíveis
  • Curva inicial íngreme
  • História bastante previsível
  • Ritmo irregular ocasionalmente
Review escrito por:
Doizelly

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