Review

007 First Light é uma boa porta de entrada, mas demora demais para acender

Bond aprende a ser 007 junto com o jogador
Disponível para:
Playstation 5, Xbox Series S/X, PC
Review escrito por:
Doizelly

Eu cheguei em 007 First Light de um jeito bem diferente do público que provavelmente estava esperando esse jogo há anos: eu nunca assisti a nenhum filme do 007, nunca acompanhei a franquia e não tinha nenhuma relação afetiva com James Bond. Justamente por isso, quando a IO Interactive anunciou que o jogo contaria uma história de origem, mostrando a primeira grande missão de Bond antes de ele se tornar o agente lendário que todo mundo conhece, eu pensei: talvez essa seja a minha porta de entrada.

E, para ser sincero, os trailers fizeram muito bem esse papel. Eles vendiam uma aventura cinematográfica, estilosa, cheia de perseguições, explosões, tiroteios, infiltrações, cenários luxuosos e aquela energia de blockbuster jogável. A impressão que eu tinha era de algo mais próximo de um jogo de ação frenética no estilo Uncharted e mesmo eu não sendo exatamente fã de Uncharted, confesso que fiquei animado para jogar. Parecia o tipo de campanha single-player grandiosa, direta e cheia de momentos marcantes que anda fazendo falta.

Só que, quando comecei 007 First Light, a minha expectativa bateu de frente com o que o jogo realmente queria ser.

A história funciona até para quem não conhece 007

007 First Light acompanha um James Bond de 26 anos, ainda como recruta naval, longe de ser o espião confiante e infalível que o mundo conhece. A história começa com uma missão encoberta na Islândia que dá errado, e a partir disso Bond é recrutado pela MI6 para integrar o programa 00 recém-reativado. Ele conhece Greenway, um mentor relutante com filosofia radicalmente diferente sobre o que faz um bom agente, e os dois precisam trabalhar juntos para expor uma conspiração que ameaça as próprias estruturas do estado britânico.

A narrativa envolve agentes renegados, supercomputadores alimentados por inteligência artificial e tensões de autoridade dentro da MI6.

Um dos pontos que mais me surpreendeu foi a história. Mesmo sem conhecer a franquia, eu consegui acompanhar bem a jornada desse Bond jovem, ainda impulsivo, tentando provar seu valor enquanto aprende o peso de se tornar alguém como 007.

Tenho certeza de que o jogo tem várias referências, acenos e detalhes pensados para fãs antigos. Um amigo que estava em call comigo enquanto eu jogava comentou várias delas, e muitas passaram completamente batidas por mim. Mesmo assim, a narrativa funcionou como porta de entrada. Eu não senti que precisava ter visto os filmes para entender o básico, e isso é um mérito importante.

O jogo acerta ao tratar Bond não como uma lenda pronta, mas como alguém em construção. Ele ainda erra, ainda se precipita, ainda precisa aprender a controlar o próprio impulso. Isso combina bem com a estrutura do gameplay, mesmo que às vezes essa justificativa narrativa não torne o início menos frustrante.

O elenco de apoio também ajuda. M, Q, Moneypenny e outros personagens entram naturalmente na trama, e mesmo sem apego prévio a esses nomes, eles conseguem dar personalidade ao mundo do jogo. O roteiro não é perfeito, algumas viradas são previsíveis e certos diálogos têm aquele exagero típico de filme de espionagem, mas no geral a campanha me manteve interessado.

Moneypenny em 007 First Light

Não era o jogo de ação que eu esperava

A primeira surpresa foi perceber que 007 First Light não é, pelo menos durante boa parte da experiência, um jogo de ação desenfreada. Ele até tem tiroteios, explosões e sequências bem cinematográficas, mas sua base está muito mais na furtividade, na infiltração e na leitura dos ambientes do que no combate direto.

No começo, isso me pegou completamente desprevenido. Eu esperava entrar nas missões improvisando, resolvendo problemas no soco ou na bala quando algo desse errado, mas o jogo deixa claro bem cedo que sair trocando tiro não é uma boa ideia. O combate inicial é quase desaconselhável: Bond morre muito rápido, os inimigos punem qualquer vacilo, e qualquer erro em uma área restrita pode virar uma tela de game over em questão de segundos.

E foram muitas telas de game over.

Missão fracassada 007 first light

Esse início foi a parte mais frustrante da minha experiência. Não porque o jogo seja necessariamente injusto o tempo todo, mas porque existe um choque entre a fantasia que ele vende e o que ele permite que você faça nas primeiras horas. Você está controlando James Bond, um personagem associado a controle, charme, improviso e competência absurda, mas no começo eu me senti muito mais como alguém apanhando do sistema do que como um agente secreto aprendendo a dominar a situação.

A ideia de acompanhar um Bond jovem, imprudente e ainda em formação faz sentido narrativamente, mas na prática esse começo pode ser bem áspero. O jogo quer que você respeite suas regras de stealth antes de te deixar brincar com a fantasia completa de ser 007. O problema é que ele demora um pouco para ficar realmente divertido.

O loop de missões é bom, mas muito evidente

Com o passar das horas, 007 First Light revela um loop de gameplay bem definido, até demais. Quase todas as missões seguem uma estrutura muito parecida: primeiro vem uma área de stealth social, depois uma parte de infiltração com inimigos, e por fim uma sequência de ação mais explosiva onde o jogo finalmente libera Bond para resolver as coisas na porrada, no tiro e nos gadgets.

A primeira etapa costuma ser a mais diferente de um jogo de ação tradicional. São áreas cheias de civis, festas, eventos, hotéis, mercados ou locais públicos onde você não pode simplesmente puxar uma arma e sair causando caos. O objetivo é observar o ambiente, escutar conversas, procurar pistas, encontrar formas alternativas de entrar em lugares restritos e descobrir como avançar sem chamar atenção.

Esses momentos são onde o DNA da IO Interactive aparece com mais força. É impossível não lembrar de Hitman, principalmente pela forma como o jogo monta espaços cheios de possibilidades, NPCs, disfarces sociais e pequenas oportunidades escondidas. Só que 007 First Light é bem mais linear e controlado. Ele dá liberdade, mas uma liberdade guiada. Você sente que há caminhos diferentes, mas raramente sente que está em uma simulação tão aberta quanto as melhores fases de Hitman.

Depois dessa etapa social, normalmente o jogo te joga em uma área de stealth mais tradicional, com guardas, patrulhas, câmeras, portas trancadas e objetivos a cumprir sem ser detectado. Aqui entram os gadgets, que vão ficando cada vez mais importantes. E, por fim, quando a missão escala, vem a parte em que o jogo praticamente diz: agora pode. A partir daí, ele assume o lado blockbuster, libera tiroteios, explosões, combate corporal e sequências mais lineares.

licença para matar em 007 first light

O problema é que essa sequência se repete do início ao fim. Começa sem combate, passa para infiltração, termina em ação. Na primeira vez, é interessante. Na segunda, ainda funciona. Depois de algumas missões, você já começa a prever exatamente como tudo vai se desenrolar. Isso não arruina o jogo, mas tira um pouco da surpresa.

Quando os gadgets chegam, o jogo melhora bastante

A virada da minha experiência aconteceu mais ou menos da metade do jogo em diante. Conforme Bond vai ganhando equipamentos melhores e o jogador entende melhor a lógica das missões, 007 First Light começa a ficar muito mais interessante.

Os gadgets fazem muita diferença. Eles não são apenas enfeites de franquia ou referências para fãs antigos: são ferramentas que realmente abrem possibilidades. Usar dispositivos para distrair inimigos, mexer com eletrônicos, criar brechas, neutralizar ameaças ou transformar um erro em uma chance de improviso torna o jogo bem mais agradável.

Foi nesse ponto que eu parei de brigar tanto com 007 First Light e comecei a entrar no ritmo dele. A furtividade passou a parecer menos punitiva e mais estratégica. As áreas deixaram de ser apenas labirintos cheios de inimigos capazes de me matar rapidamente e começaram a parecer pequenos quebra-cabeças de infiltração. A sensação de observar, planejar, testar uma abordagem e conseguir avançar sem ser visto finalmente começou a fazer sentido.

Ainda assim, o jogo nunca deixou de ser meio rígido. Ele te dá opções, mas nem sempre aceita bem o improviso. Algumas situações parecem querer que você jogue exatamente do jeito que os designers imaginaram. Quando tudo funciona, é muito satisfatório. Quando não funciona, a ilusão de liberdade quebra rápido.

A ação é divertida, mas nem sempre refinada

Quando 007 First Light abraça a ação, ele entrega alguns dos seus melhores momentos. As sequências cinematográficas têm escala, ritmo e estilo. Existe um cuidado claro em fazer tudo parecer parte de um grande filme de espionagem: perseguições, fugas improvisadas, tiroteios em cenários grandiosos, combates corpo a corpo e aquela sensação de que Bond sempre está escapando por pouco.

O combate corporal tem boas ideias. Usar o ambiente, arremessar inimigos, contra-atacar e transformar objetos ao redor em armas deixa as lutas mais físicas e visualmente interessantes. Só que ele também pode parecer duro em alguns momentos. Há uma certa falta de fluidez, principalmente quando vários inimigos vêm ao mesmo tempo ou quando o jogo exige respostas muito específicas de parry, esquiva e contra-ataque.

Os tiroteios também melhoram conforme você avança, mas não são o ponto mais forte do jogo. Eles funcionam melhor quando estão misturados com gadgets, movimentação e set pieces do que quando viram simplesmente troca de tiros em cobertura. No começo, como já mencionei, o combate é quase uma sentença de morte. Mais para frente, quando o jogo te dá mais recursos, ele se torna bem mais prazeroso, mas ainda não chega ao nível de um grande shooter em terceira pessoa.

O curioso é que 007 First Light me parece mais interessante quando mistura tudo: um pouco de stealth, um pouco de improviso, um pouco de pancadaria e um pouco de tiroteio. Quando ele tenta ser só uma coisa, suas limitações aparecem com mais força.

O problema é que ele demora para conquistar

A minha relação com 007 First Light foi bem curiosa: comecei detestando e terminei gostando. Isso resume perfeitamente a experiência. O jogo possui qualidades evidentes, mas demora demais para mostrá-las. As primeiras horas podem ser frustrantes, especialmente para quem espera uma aventura de ação mais direta. O combate leva tempo para ganhar profundidade, o stealth parece rígido e punitivo antes dos gadgets ampliarem as possibilidades, e o loop das missões acaba se tornando previsível conforme a campanha avança.

Por outro lado, quando o jogo finalmente encontra seu ritmo, ele revela uma identidade própria. Não é apenas um Hitman com a licença de James Bond, nem um Uncharted focado em espionagem. Ele tenta ocupar um espaço entre esses dois mundos, misturando infiltração, investigação social, gadgets e momentos cinematográficos. Nem sempre essa combinação é equilibrada, mas quando funciona, entrega algumas das melhores partes da aventura.

A maior virtude de 007 First Light é fazer o jogador se sentir parte de uma operação de espionagem, e não apenas de mais uma sequência de tiroteios. A história consegue prender a atenção, os cenários são belíssimos, os gadgets tornam a segunda metade muito mais divertida e algumas cenas de ação entregam exatamente o espetáculo que os trailers prometiam. Em contrapartida, o jogo insiste tanto em sua própria estrutura que acaba ficando previsível, limitado em alguns momentos e mais lento do que deveria para conquistar o jogador.

No fim, 007 First Light foi uma experiência irregular, mas positiva. Como alguém que nunca havia consumido nada de 007, ele funcionou como uma excelente porta de entrada para esse universo. É um jogo que terminei gostando muito mais do que imaginava nas primeiras horas, embora não o suficiente para ignorar o quanto ele me cansou antes de finalmente engrenar. Para quem aprecia campanhas cinematográficas e stealth, há bastante coisa para gostar aqui. Só não espere ação frenética o tempo inteiro. Esta é uma aventura mais paciente, mais metódica e mais focada na infiltração. Para mim, foi um jogo que começou apagado, mas encontrou seu brilho na segunda metade.

Sem spoilers

007 First Light é uma boa porta de entrada, mas demora demais para acender

Disponível para:
Playstation 5, Xbox Series S/X, PC
Versão que jogamos:
PC
O jogo possui legendas em Português mas não é dublado.

Pontos Positivos

  • Ação cinematográfica envolvente
  • Boa porta de entrada
  • Cenários belíssimos e variados
  • Gadgets bem utilizados
  • História acessível aos novatos
  • Identidade própria de espionagem

Pontos Negativos

  • Gameplay demora a engrenar
  • Improviso nem sempre funciona
  • Início frustrante e punitivo demais.
  • Liberdade limitada em momentos
  • Loop de missões previsível
  • Stealth rígido e punitivo
  • Estrutura repetitiva das missões
  • Tiroteios pouco refinados
Review escrito por:
Doizelly

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