Se você já ouviu falar em Super Meat Boy, sabe exatamente no que está se metendo: um jogo que não tem a menor piedade de você. Cada fase é um exercício de timing perfeito, reflexos afiados e, convenhamos, uma dose generosa de paciência. A franquia se tornou sinônimo de dificuldade desde que estourou lá nos primórdios do Xbox Live Arcade, quando os jogos indie começaram a ganhar o espaço e o respeito que mereciam.
Curiosidade pessoal: meu primeiro contato com Super Meat Boy não foi pelos controles, mas sim pela Netflix. O documentário Indie Game: The Movie mostrou os bastidores da criação do jogo de um jeito tão humano e intenso que, antes mesmo de jogar, eu já entendia o peso que aquele projeto carregava. Ver o criador literalmente dando sangue pela sua criação é algo que fica guardado.

Anos depois, os responsáveis pela franquia resolvem trazer uma nova aventura do pequeno pedaço de carne, agora em um ambiente completamente tridimensional.
A Fórmula Clássica, Agora em Três Dimensões
O foco em Super Meat Boy 3D continua sendo 100% no que sempre fez a franquia funcionar: desafios de plataforma punitivos, timing milimétrico e aquela sensação constante de que você está sempre à beira do abismo.
A estrutura do jogo é organizada em 5 mundos, cada um contendo 15 fases e um boss ao final. O objetivo continua o mesmo de sempre: chegar até a Bandage Girl superando todas as adversidades que o jogo coloca no seu caminho. Simples no papel, brutal na prática.
Além das fases principais, Super Meat Boy 3D oferece uma camada extra de conteúdo para os mais masoquistas de plantão: curativos espalhados pelos cenários que, ao serem coletados em quantidade suficiente, desbloqueiam novos personagens jogáveis. Cada um deles traz não só um visual diferente, mas também uma jogabilidade diferenciada, alguns facilitando sua vida, outros tornando tudo ainda mais um pesadelo. E sinceramente, fica a pergunta, quem é o sádico que olhou para o desafio natural do jogo e achou que precisava de mais?

E por falar em sádicos, o jogo também conta com fases de submundo. Elas são liberadas quando você passa uma fase dentro de um tempo recorde pré-estipulado, desbloqueando versões ainda mais desafiadoras de todos os níveis. É um conteúdo voltado para os completistas raiz aqueles que terminam o jogo e ainda querem sofrer mais um pouco.
O Grande Problema: Controles no Espaço 3D
Aqui chegamos no ponto mais delicado da análise de Super Meat Boy 3D, e também no meu maior problema com o jogo.
Os cenários são tridimensionais, mas a câmera é completamente fixa, assim você não tem nenhum controle sobre ela. Na prática, isso significa que muitas vezes você vai explorar o ambiente no escuro, tentando adivinhar o que vem pela frente. A boa e velha tentativa e erro vira uma mecânica oficial do jogo: você vai lá, morre, aprende o que está esperando por você, e tenta de novo. Até aí, dentro do espírito da franquia, dá pra engolir.
O problema de verdade é a imprecisão dos controles dentro desse ambiente 3D. O personagem é extremamente leve, e um toque mínimo pode virar um drama. Foram inúmeros momentos em que eu simplesmente não conseguia parar após uma sequência de saltos, ou em que era difícil entender exatamente onde deveria pousar ou continuar o percurso. Pulos que deveriam ser milimetricamente precisos simplesmente não funcionam como deveriam.

E o que incomoda mais nessa situação é a inconsistência. Não eram todas as fases, em algumas tudo fluía bem. Mas em boa parte delas, eu sentia que morria mais do que deveria por conta da construção estranha do level design no ambiente 3D, e não por falta de habilidade minha. Existe uma diferença enorme entre morrer porque você errou e morrer porque o jogo simplesmente não foi claro o suficiente, ou porque o controle não respondeu como deveria.
Um jogo punitivo pode ser extremamente satisfatório desde que você sempre sinta que a culpa é sua. Quando a frustração vem de algo confuso ou de um controle impreciso num jogo que exige precisão acima de tudo, a experiência deixa de ser desafiadora e vira só cansativa.
Diversão com Prazo de Validade
Super Meat Boy 3D pode sim ser um passatempo estressante e divertido desde que jogado do jeito certo. Com pausas, sem pressa e com a mentalidade certa, ele entrega aquela adrenalina característica da franquia.

Mas ele caminha perigosamente perto da frustração o tempo todo. Em vários momentos durante a minha experiência, eu quis simplesmente largar o controle. Não fosse pela necessidade de finalizar essa análise, provavelmente teria feito isso mais de uma vez.
Dito isso, é importante ser honesto: se você é fã da franquia 2D e já tem aquele relacionamento complicado-mas-apaixonado com Super Meat Boy, pode ser que você lide com esses tropeços de forma bem diferente. A essência do jogo está lá a questão é se a execução técnica no ambiente 3D vai te conquistar ou te expulsar.
Super Meat Boy 3D tem o coração no lugar certo, mas tropeça na execução. A transição para o 3D traz consigo problemas de controle e level design que pesam demais num jogo que exige exatamente o oposto: precisão absoluta. Vale uma chance para os fãs da franquia, mas com as expectativas bem calibradas.
Agradecemos os amigos da Headup Games que gentilmente nos enviaram uma cópia de Super Meat Boy 3D de PlayStation 5 para a criação deste review.













